ENTREVISTA – Site da África - EisFluências
SILAS CORREA LEITE – www.portas-lapsos.zip.net
E-mail: poesilas@terra.com.br
-Professor, Especialista em Educação, Conselheiro diplomado em Direitos
Humanos, Jornalista Comunitário, escritor premiado em verso e prosa, membro da
UBE-União Brasileira de Escritores, autor entre outros de Porta-Lapsos, Poemas,
e Campo de Trigo Com Corvos, Contos prenmiados.
ENTREVISTA
1-Na infância
qual foi o seu primeiro contacto marcante com a escrita?
-Meu pai,
Maestro Antenor Correa Leite, já falecido, hoje nome de rua em Itararé, era
compositor sacro, maestro, regente, arrajador, músico e fundador de corais e
bandas em Itararé e região do Paraná, e lia, tinha programa de rádio, regia
corais e bandas, artista talentoso, e nos obrigava a ler, como também nos dava
de castigo, a mim principalmente, muito hiperativo e traquinas, de ler dicionário,
jornal e a Biblia. E era um ótimo contador de causos tambem, desses de juntar
gente, de gente parar para ouvir, enquanto proseava após tocar toadas e baladas
em seu acordeom vermelho. Quando até os passarinhos de Itararé pousavam para
ouvir, e a rua descalça, cor de rosa, da periferia de Itararé, ficava lotada de
gente... Escrita, história oral, música,
poesia. Minha infância, meu maior tesouro...
2-Que espaço os
livros ocupam no seu dia-a-dia?A leitura de alguma forma, influência no seu
trabalho e no seu quotidiano?
Leio demais. E
leio de tudo. De vidas-livros a momentos e cinscunstancias, de sentimentos e
silêncios pegajosos, de olhares a preludios, lágrimas e barulhanças. Gosto
muito mais de ler do que de existir. Sempre li muito. Como uma leitura-fuga,
devaneio, estado onírico. Leio vários livros ao mesmo tempo. Tenho uma memória
fotográfica. Com isso, dei-me a escrever feito um condenado à vida. Gosto mais
de escrever do que de respirar. Cedo, aos 16 anos, em 1968, escrevia para o
jornal O GUARANI, de minha aldeia-mãe. Ler esteve na minha vida como um prazer,
um deleite, um luzeiro, e tudo o que li me influenciou, me fez ser o que sou, no
lustral me fez vencer na vida, me fez ser um humanista de resultados, pontuou
minha vida-livro, minha alma aberta, meus sonhos em busca de uma Terra do
Nunca, uma Shangri-lá, uma Pasárgada, atrás de justiça, de amor, depois nos
estudos e no trabalho, caminho para ser, pensar, sentir, lutar contra muros e
contra a hipocrisia social, a favor dos despossuidos, atrás talvez, da minha
estrada de tijolos amarelos...
3-O escritor
peruano Mario Vargas Llosa certa vez disse o seguinte "a minha passagem
pelo jornalismo foi fundamental como escritor”
Como cedo
escrevia para os jornais, de humor a crônica, comecei a fazer de tudo no
jornal, e foi sim, uma escola, mas sob uma ótica diferente do Vargas, sendo eu
de origem pobre, fui sondando as suspeitas riquezas injustas, os sórdidos lucros
impunes, sempre lutei, estudei e trabalhei muito, querendo deixar de ser pobre,
fazer parte da dita sociedade, mas quando mais chegava perto e sondava a
sociedade, no pântano da condição humana, comecei a ficar com medo de parecer
com aquilo que, em mais de cinquenta por cento eram os ricos, a elite, a classe
dominante, os donos, ladrões, jagunços e bandidos ou descendentes deles. E
então compreendi a verdadeira propriedade-roubo, máfias e quadrilhas,
injustiças sociais... e tornei-me um gauche na vida, ao contrário de Vargas que
se prostituiu e aderiu ao neoliberaismo das privatizações-roubos, do
neoescravismo da terceirização, e virou um orangotango deles muito mais por
fazer farte da banda podre dos podres poderes, do que por ser ético...
visionário, sonhador, plantador de sonhos nos canteiros da razão, enquanto eu, humanista,
olhar acima e sobre todas as coisas, tenho outro prisma, dores vivenciadas, quando
ele, desde a América Cloaca à qual reverenciou e serviu de marionete, e
esqueceu a pobreza de seu tempo, o historial da banda pobre da América pobre, roubada,
saqueda, pelas colonizações de muito ouro e pouco pão. Ao final da carreira,
decrépito, para isso Vargas serviu, então, perdeu o senso do ridículo... O
Nobel lhe caiu com o sangue dos descamisados... os históricos excluidos sociais
que ele rejeitou...
Como porta-voz
da sociedade você percebe na literatura ou no jornalismo uma função definida ou
mesmo pràctica?
Falando sério,
acho que a função da literatura propriamente dita, acaba não tendo uma função
que seja tão de fundamentação social por ela mesma, quando cada ego criador
depois que se encarcera na redoma do “achar que é o que não é”, ou do tipo
“pensa que pensa”, dilui muito aquilo que Rimbaud falou do artista, do criador
ser uma real antena de seu tempo, de sua época, de seu meio, de seu núcleo,
lutando contra as misérias do cotidiano, pois acabam em antros, máfias e
quadrilhas, e toda a loucura, horror, medo, consciência historial pró fracos e
oprimidos; acaba por discutir o proprio umbigo, e o que deveria ser porta-voz
da sociedade, em tese, pelo menos, acaba num antro, como toda grande midia o é,
em todo lugar do mundo, por isso prefiro o poeta carranca marginal, tachado que sou, por exemplo, de
neomaldito da web, do que arrotar grandezas pifias, infovias efêmeras e
reproduzir o porco sistema que faz com que o verdadeiro artista, jornalista e
poeta, seja uma espécie assim de um alienado por suportar a dor de existir, de
ter que sobreviver pela causa da maioria, enquanto a minoria pilha, prostituti,
se vende, com suas posses à custa de exploração, de sangue, de fome gerando
lucro... miseráveis à mingua...
4-Quais são os
autores imprecindiveis nas suas leituras como escritor e leitor?e quais nuncam
o abandonam?
Cresci lendo
Érico Verissimo, todos os poetas de então, e a historicidade temporal de cada
um deles, descobri depois o Drumond e me encantei, claro, adoro Graciliano,
Guimarães, Machado de Assis, Clarice Lispector, Hilda Hist, e fora do Brasil,
Pessoa, Saramago, Bertod Brecht, Maiaskovski, Neruda, Whitman, Lorca, Tolstói,
Dostoievski, entre tantos. Li os
melhores do mundo muito cedo. Vim, pela vida, lendo os clássicos, os melhores.
Com todos aprendi. De tudo aprendi o olhar sobre os miseráveis, a sentir a dor
dos outros, depois entrei pelo surrealismo, realismo fantástico, e estou nessa
lida de dar eu mesmo o meu proprio quinhão criacional, meu testemunho de dor e
de arrebentações e perguntamentos, estando hoje, por exemplo, em mais de 500
links de sites, oito livros, alguns prêmios, algums processos sofridos por
atacar os podres de São Paulo e do Brasil da extrema-direita (hoje a pior
oposição da história da república), constando em mais de 100 antologias literárias
em prosa e verso, inclusive no exterior.
5-Neste mundo
cada vez mais globalizado, tão afeito ao imagético, com um nível elevado de
analfabetismo, e atrasado culturalmente.
a)
O que te
leva a dedicar-se a arte de escrever numa era onde ler um livro não é a palavra
de ordem?
Nunca
tive o LER como uma paavra de ordem, sempre pensei a banda podre do poder como
uma impunidade generalizada, como em Samparaguai, e tendo feito um e-book de
sucesso (que depois virou tese de mestrado e doutorado em Universidades), o
RINOCERONTE DE CLARICE, primeiro livro interativo da rede mundial de
computadores, acabei entrando pelas portas do fundo da modernidade digital, e
já fui fundo criando esse livro que foi sucesso inclusive na midia televisiva
do Brasil, onze contos fantásticos, cada conto com três finais, um final feliz,
um final de tragédia, e um terceiro final politicamente incorreto, de
vanguarda, único no gênero... trabalhando a minha literatura louca pelos meios
modernos, sem fugir do canteiro das palavras, tentando unir o moderno ao meu
lado sentidor, pensador... questionador de tudo...
6-O escritor
angolano José Agualusa disse certa vez que "o escritor africano deve sair do gheto”, sendo o
escritor a voz dos que não tem voz, a sua intervenção social não só deve
cingir-se a escrita num país com baixos niveis de leitura, o escritor deve se
expor na sociedade, comunga da mesma ideia?o ser escritor compensa?e qual é o
papel do escritor?
Sou um poeta e
ficcionista, ainda que premiado em prêmios de renome e estando em mais de 500
sites, de ter estado na midia impressa e televisiva, de ter poema contestatório
meu usado em Vestibular como na Universidade do Estado de São Paulo (UNESP),
ainda assim sendo um ilustre descohecido, então acabei por fazer reportagens,
resenhas criticas, ensaios, letras de rock, de blues e de MPB, numa variação
que me inseriu aqui e ali em antologias, em palestras, debates, congressos,
midias, de alguma maneira eu, assim, descendente de negro (de Angola) e indio
tupi-guarani por parte de mãe, e judeu-português (da Ilha da madeira) por parte
de ancestrais de meu pai, saindo de meu gueto pessoal, abrindo portas, dando
testemunho de mim, gritando contra as misérias, as bombas da fome, do lixo,
tentando sobreviver assim, sabendo que, sim, berrar é humano... Mas, não sei
exatamente se SER ESCRITOR tem compensação, qual o papel do Escritor. O papel
do escritor é não ter papel nenhum?
7-A língua nos
une, mas continuamos muito distantes um do outro, em termos globais qual é o
estado cliníco da literatura de expressão portuguêsa?e o que a literatura do
seu país recebe dos outros quadrantes lusófonos, concretamente os africanos, refiro-me
a literatura moçambicana, angolana, guineense, cabo-verdiana, e.t.c.
Estamos longe de
Portugal, terra-mãe, mesmo que a lingua nos una, de costas para a
hispanoamérica e tendo-a nos calcanhares, e perto do império da América Cloaca
com suas viseiras e implicações do open-doping da midia atrelada de lá, como se
ilhados de todas as formas, e por isso mesmo dopados de todas as formas, então
tivemos historialmente influência da literatura portuguesa, claro, um pouco da
francesa, pouca da loucura santa hispanoamericana, Borges, Cortázar, Neruda e
outros, e muito do hitlerismo anglosaxônico com suas ocasionais qualidades mas
olhares diferenciados de nossa própria realidade suja de sangue amerindio ou
afronauta, então acabamos por criar nesse tabuleiro de vaidades, um mosaico
dessas mixórdias todas, e, só mais recentemente, a literatura Africana aportou
por aqui, e estamos de novo, principalmente com a ótima gestão da Era Lula,
colocando os pés na América espanhola sem perder o medo de ser feliz, com os
pés na áfrica da qual temos a mais rica e bela cultura, e eu, ainda, para
variar, um afro-luso tupidavídico, vou lendo de tudo e de todos, apreeendendo
para miscigenar ainda mais a minha loucura-lucidez no que crio, alma viajosa,
almanau, tentando desse meu lado mestiço dar o meu depoimento, o meu
testemunho, tipo, faz escuro mas eu canto, ou, o importante é que a emoção
sobreviva, e também para não nos perdermos de nós, de nossas origens, de nossas
raízes. O Brasil é sim, essa africalatina em pó, como bem cantou Caetano
Veloso. Mais: respeito muito minhas
lágrimas...
8-Se em
Moçambique, Angola, Cabo-Verde, São-Tomé, Timor Leste, e.t.c., o grande
problema que cruza o caminho do escritor é encotrar uma Editora onde possa
publicar o seu trabalho, e em seguida alguém que compre, e lê a mesma, creio
que em Portugal e no Brasil acontece o inverso, a tanta facilidade de publicar,
e com isso não corre-se o risco de ser ter muita obra imatura nas
prateleiras?ou mesmo por parte dos escritores consagrados publicarem livros de
auto ajuda?
Não se iluda, caro
amigo, como nos lugares em que você citou, autores nomes, de qualidade, de alto
gabarito e estilo, também no Brasil cheio de panelas para os chamados falsos novos,
não é muito diferente, temos dificuldades em publicar pelas chamadas grandes
editoras, somos pouco lidos pela maioria absoluta da população, o que aparece é
a ponta de um e outro de qualidade, a maioria deles são ligados a panelas,
antros e máfias dos mesmos, ligados à midia podre, ligados à sociedade de
escrotos, têm seus amigos do alheio, então, há muita porcaria nas prateleiras,
muita gente nova correndo atrás, há trabalhos mil vezes melhores ainda anônimos
e inéditos do que aqueles que aparecem nos jornalões, porque fazem parte de
antros, se prostituiram, se venderam mal e porcamente, e até mesmo os tais
consagrados acabam por deixando de escrever sobre a dor real, sobre a
sociedade-pântano, e acabam em livros de ajuda que mais ajudam as editoras e os
autores do que prestam para alguma coisa ou têm qualar qualidade literária que
seja...
9-Que obra de um
escritor de qualquer quadrante do mundo que os moçambicanos deviam ler
urgentemente?e como formar leitores?
Leio dos escritores
famosos por força das circunstancias, a autores novos fora do eixo midiático,
pesquiso na web, troco informações e obras com outros neomalidtos como eu, recomendo a leitura de tudo e de todos, bons e maus, consagrados e iniciantes, para
cada um autor novo ter o seu juizo de
valor, segundo a sua linha, o seu gosto, o seu interesse de também fazer a sua
parte, criando, denunciando, sendo um grito de horror contra esses tempos
pós-modernos de muito ouro e pouco pão, de gueras mercantis, da decadência do
sórdido império americano, em que potências emergentes açodam criadores
insurgentes, e vamos regurgitando o escárnio, que é isso que vale a idéia, a
criação, não deixarmos passar em brancas nuvens os podres podres, as
privatarias (privatizações-roubos como em São Paulo), o proprio
neoliberalismo-câncer que assola o mundo, e, ao final das utopias, com o
capitalhordismo americanalhado também de fundo falso, falsa lei de oferta e
procura, fraudes e subterrâneos de fraudes, devemos denunciar, cobrar um
tribunal internacional para o escroto do Clã Bush, e darmos, nós os
afrobrasilis, darmos o nosso brado retumbante contra o dezelo do chamado mundo
moderno e da civilização européia que explorou a africa pobre que ainda agoniza,
fazernos partes dos loucos que amam a louca vida, praticam o sentido
ético-comununitáiro de um humanismo de resiultados, contra os podres poderes
dos assassinos de terno, gravata, toga, farda, túnica e medalhas com estrelas
de sangue, contra as máfias de banqueiros, os agiotas das moedas podres, os
estados propositalmente falido em beneficiado do nojo privado. A luta é sempre.
Criar é resistir. Viver não é fácil. Somos os que sabem a verdadeira história
por trás da oficialidade dos picadeiros e redis? E quanto a formar leitores,
continuarmos insistindo na descoberta do novo, do belo, do diferente, apreendendo
ideias da net com nossas práticas, formando leitores a partir de novas implicações
linguisticas a partir das falas da internet, porque estamos no olho do furacão
e devemos tentar formar leitores quando nos mudaros de nós, entrarmos em
twitter-poemas como eu faço, twitter-contos, blogues, sites, alucinações
lítero-culturais e todo esse mandacaru
atônito.
-0-

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