ENTREVISTA
– Jornalista Elvis de Oliveira Ferraz
ENTREVISTADO:
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IN-
Deste de que idade surgiu a paixão pela poesia?
RESPOSTA:
Fui, por assim dizer, ‘descoberto’ pela Professora-alfabetizadora a Mestra-Anjo
Jocelina Stachoviach de Oliveira (o primeiro anjo que Deus colocou em minha
vida), no Grupo Escolar Tomé Teixeira de Itararé, anos 60, fazendo poemetos
pueris, colados em jornais de cartolina nos murais da escola primária. Aos 16
anos escrevia para jornais locais, croniquetas, humor, trocadilhos. Meu pai,
Maestro Antenor Correa Leite, já falecido, hoje nome de rua em Itararé, era
cantor, compositor sacro, maestro, regente, arranjador, músico e fundador de
corais e bandas em Itararé e região, e região do Paraná, e lia muito, tinha
programas de rádio, regia corais e bandas, artista talentoso, e nos obrigava a
ler, como também nos dava de castigo, a mim principalmente, muito precoce,
hiperativo e traquinas, espeloteado, de ler dicionário (pesquisar palavras que
eu dizia por dizer só por achá-las bonitas sem contextualizá-las), ler jornais
(as brigas do Brizola, Jango, Lacerda) e a Bíblia. E era um ótimo contador de
causos também, desses proseadores de juntar gente, do povo parar para ouvir,
enquanto proseava com garbo após tocar toadas e baladas em seu acordeom
vermelho, quando até os passarinhos de Itararé pousavam nas cercas para ouvir,
e a rua descalça, cor de rosa, da periferia de Itararé, Vila São Vicente, ficava
lotada... Escrita, história oral, música, poesia. Minha infância, meu maior
tesouro... Com ele, meu patriarca, peguei gosto pela arte, música, leituras
mil, e lendo a Bíblia adorava os Salmos; poemas que “salmam” (louvam, esse é o
verbo) a Deus. Pois foi a descoberta da poesia como encorpamento de minha
sensibilidade, da minha primeira formação lítero-cultural, por assim dizer.
Lendo muito, e lendo poesia, fui me clarificando e me achando, achando também
um caminho de mim comigo mesmo... A Poesia me salvou de mim. Habitando-a, feito
uma Pasárgada, uma Shangri-lá, uma Neverland, pude encarar a infância humilde,
depois a barra pesada de viver e de sobreviver, encorpando assim ainda a minha
persona na fundação da poesia, da poesia como libertação, clarificação...
âncora e farol, e, nela, escrevendo-as, a respiração da alma sensível... Eu faço
poesia como quem chora... Como quem viaja... como quem pede socorro... Feridos
venceremos?
IN-
Ao seu ver o que a poesia tem a ver com a cidade de Itararé?
RESPOSTA:
Itararé, bonita pela própria natureza, palco iluminado, chão de estrelas, a
história que toda cidade brasileira gostaria de ter, Itararezinha, Santa
Itararé das Artes, Cidade Poema, República-Etílico-Rural Zenboêmica de Itararé,
capital artístico-cultural da região - a história do Brasil passa por Itararé;
sempre haverá Itararé... então, cantando-a a em verso e prosa – Canta a tua
aldeia e serás eterno, disse León Tolstói – Itararé é a própria beleza geofísica,
a própria arte, a própria Poesia. Por isso, Cidade Poema, berçário, ninhal, meu
reino encantado. Aliás, na própria
Estância Boêmia de Itararé, o clã dos chamados “fanáticos por Itararé” diz que
a cidade é mesmo um ponto do universo onde a mão do criador parece haver se
esmerado em reunir maior número de belezas, acumulando nossa aldeia abençoada
de tudo quanto possa encantar os olhos e arrebatar o espírito. E seus cânions,
grutas, cavernas, sumidouros e cachoeiras provam isso. Itararé, brilhante,
portentosa, diferenciada, ilustre, com seus artistas, com sua seiva ficcional (e
de mentirosos, contadores de causo) e rica linguística de dimensão histórica e
humana.
IN-
Em Itararé há dois hinos dedicados ao município, "O Hino de Itararé",
do Gerson e Dorothy, e o Hino ao Itarareense, no qual o senhor é o autor da
letra. Poderia nos dizer como foi composto este hino?
RESPOSTA;
Bem,
eu, saudoso de Itararé, entre uma renca de saudosos ausentes andorinhas sem
breque, em bares do Bixiga, bairro boêmio de São Paulo, no inicio dos anos 70,
cantava meus lamentos entre conterrâneos, e, melancólico, com saudades de
Itararé, fiz uma balada, meio blues, meio banzo, meio fado, meio “spiritual”, que
era essa letra e tinha uma música no mesmo espírito e improvisado corpo musical
boêmico louvando Itararé. Nas quebradas da noite – e longe de Itararé é um
lugar que não existe (só Deus sabe a dor que sente um Itarareense longe de seu
lar, sua terra-chã) – eu aguardava um
dia que houvesse um concurso, como tantas vezes sugeri escrevendo nos jornais
locais, para concorrer com outros compositores, visando eventualmente a ser concorrente
ao hino oficial de Itararé, como aconteceu em outros municípios em que era
criado um concurso para isso. Como, no entanto, o Prefeito Coquemala instituiu
o Hino de Itararé, quem há tempo conhecia o meu trabalho sugeriu que eu o
inscrevesse pelo menos como Hino ao Itarareense, e, assim, tardiamente ou não,
graças a amigos que amo, admiro e respeito, e me ajudaram muito nesse fito, e
houve então que eles intercederam junto às autoridades constituídas e nesse
fulcro ficou sendo finalmente o Hino ao Itarareense, com aprovação oficial do
Palácio Vadico (Legislativo Municipal) e sanção do Prefeito, o que em muito me
honrou, quando, também, fui o primeiro homenageado no Centenário de Itararé, o
primeiro a ser escolhido para expor no Centro Cultural de Itararé (Mostra
“Imagens & Palavras”), tendo, à ocasião, meu falecido pai recebido o nome
de uma rua em Itararé, e eu, o galardão do glorioso titulo de Cidadão
Itarareense de papel passado e tudo. Por isso, o Hino ao Itarareense ainda é um
hino de louvor à Itararé, ao seu celeiro de artistas, e os dois, belos referenciais
artístico-musicais dessa Itararé que amamos tanto.
IN-
Como surgiu a ideia de compor este hino?
RESPOSTA:
O comentário exposto acima já enuncia bem a ideia da obra como um todo, da
criação em si, mas a letra era de muito antes, quando eu morava em pensão,
passando fome, “sem dinheiro no bolso/sem parentes importantes/e vindo do
interior – como na canção de Belchior - longe de casa, para fugir (solidão,
tristeza, saudade, angustia, amargura) e comecei a bolar a letra/poema, depois
musicando de improviso, cantando ora em ritmo e jeito de balada, ou espiritual,
ou mesmo tipo blues improviso, quando amigos meus me viam melancólico e me ouviam
a cantar chorando – saudades de Itararé é uma dor que dói na alma - e os Itarareenses
que como eu tinham migrado, chorando
cantavam comigo... Para ser oficial ele foi mudado aqui e ali, o Maestro
Vanderlei Garcia do Nascimento (Igreja Adventista de Itararé), acertou aqui e
ali, fez a partitura, deu a versão final em harmonia, melodia e rimo. E se
restou então assim, em letra e música final. No site do UOL há uma bela
gravação do Mauro Vieira cantando – vejam no link na web:
Hino
ao Itarareense (Letra)
1
Se
a batalha te chama na história
Voltarás
com verve e augusto
Pra
ser forte no amor e na glória
Defender
Itararé a todo custo
Levas
sempre no peito o encanto
De
uma Terra de infinita Sé
Dessa
aldeia que adoras tanto
Santuário
chamado Itararé
(Refrão)
Se
a honra de Ser te pertence (
Deste
chão és ternura e fé (
Pra
viver sempre Itarareense (
E
morrer por Itararé! (bis)
2
Sentinela
que guarda a fronteira
Um
celeiro de pinha e maná
Da
legalidade és trincheira
Às
barrancas do Paraná
Se
te fundas Boêmio que vence
Desde
os bosques, planícies até
Te
engalanas tão Itarareense
Feito
nau ao luar de Itararé
3
Se
o Brasil ergue a clava forte
Pra
ornar a Carta-Constituição
Lutarás
com ardor até a morte
Para
valorizar teu rincão
Esse
Itarareense-Andorinha
Encantada,
do rio verde ao tembé
Sobre
a Coronel Jordão se aninha
Chão
de Estrelas de Itararé
IN-
Trocaria a cidade de Itararé para morar em outro lugar?
RESPOSTA
Nem
por força. Morrendo vou para uma Itararezinha Celeste... Aliás, um poema meu
bem responde e diz poeticamente:
Deixei
Meu Coração em Itararé
Eu
posso ir para qualquer lugar do mundo
Uma
paisagem bonita, montanhas, ou oceanos
Mas
se não estou na minha aldeia Itararé
Então
não me sinto dentro do meu próprio coração.
Ah
meus amigos viajosos
Deixei
meu coração em Itararé
Num
cristal de lágrimas de luar da Praça Coronel Jordão
Ali
é meu ninhal, meu mundo
Só
em Itararé sou uma verdadeira Andorinha.
Eu
posso ir para qualquer lugar do mundo
Ver
estátuas e cofres, novidades maravilhosas
Mas
Itararé está na minha corrente sanguínea
Só
na minha terra-mãe reconheço auroras e prelúdios.
Ah
meus amigos boêmios
Deixei
meu coração em Itararé
Cada
paralelepípedo como cacau quebrado da cidade, sou eu
Itararé
é o meu encantário
Meu
reino mágico, palco iluminado, constelação.
Ah
meus amigos do mundo
Quem
não está em Itararé está vazio de si mesmo
Minha
mãe, meu chão de estrelas, minhas memórias, meu lar
Feliz
é o peregrino que tem um céu para um dia poder voltar!
IN-
O que mais de orgulha em fazer parte de Itararé?
RESPOSTA:
Ah,
eu sou apenas uma andorinha sem breque (quem nasce em Itararé é andorinha; fui
eu quem criou isso), sem lenço e sem documento, nada nos bolsos e nas mãos,
como na canção de Caetano Veloso, um eterno aprendiz do Mestre Jorge Chueri, o
maior artista de Itararé, que também teve como referência Itarareenses
ilustres, como Pedro Ribeiro Pinto, Peri
Fiuza, Percy Jorge, Gustavo Jansson, Nequinha, Paulo Rolim, João Contieri,
Hermínio Lages, Samuel Barbosa, Celso Pelissari, Paranaense Ferreira, Walter
Santana Menk, ou ainda Lázara Aparecida Fogaça Bandoni, Terezinha Iluminada de
Mello, Maria Aparecida Coquemala, Eunice
Brito Tatit, Celeste Bizarro, e de ter sido amigo das Famílias Tatit, Chueri, e
tantas outras, pilares da sociedade Itarareense... O que mais me orgulha é ser
uma espécie assim de embaixador itinerante de Itararé, 'trovattore' mambembe
que canta a sua terra. E tenho uma bandeira de Itararé, para, quando morrer,
amarrá-la ao meu dorso. Como já passei dos 60 anos, penso também em encher um
travesseiro de terra de Itararé, para estar comigo, por onde eu me for, e
quando eu morrer, descansar minha cabeça de louco da pá virada e da pá varrida,
sobre esse travesseiro de terra de Itararé, até aqui no cemitério lágrimas do
céu de Itararé ser plantado. Até porque, cuido bem de minha terra, porque um
dia morrerei, e então serei, finalmente e para sempre, a própria Itararé.
Quando eu era criança, comia terra. Um dia, no devir, quando uma criança
comendo terra disser que a terra está com gosto de poesia, sou eu, sou esse,
sou essa, minha Itararé-poema, da qual eu sou apenas uma andorinha sem breque,
e tenho orgulho de ser discípulo desses mestres magnos de meu chão de
estrelas...
IN-
Qual a maior vitória do município nestes 121 anos?
RESPOSTA;
Triste
Itararé, abandonada nesses últimos anos, em total dezelo público, de improbidades
a falta de visão técnico-administrativo-funcional com ética plural comunitária
inclusiva, desacertos que ensejaram impunidades e mesmo vários processos contra
políticos nefastos à historicidade de tão maravilhosa terra, que vivenciou
historicamente outras revoluções, guerras civis, esteve para ser destruída, mas
ninguém pode destruir Itararé. Essa é a nossa maior gloria, a nossa maior
vitória, a nossa maior riqueza historial datada. Será que não sendo destruída
por canhões, bombas, revoluções de fins de uma oligarquia e começo de outra,
afinal seremos destruídos (como estivemos sendo por dezesseis anos) por políticos
incompetentes e corruptos? Sempre haverá Itararé, e, como digo num poema:
Itararé
das Revoluções
Revoluções
históricas do Brasil passaram por Itararé, cidade de divisa
E
quiseram destruir Itararé; nosso rincão amado, nossa terra-mãe
Mas
Itararé não pode nunca ser destruída. Sempre haverá Itararé
Cada
andorinha-Itarareense será essa nossa Itararé alada, esse pavilhão
Por
onde for
Com
sua bandeira na alma, o DNA no coração e seu esplendente amor
Itararé,
Trincheiras da Legalidade, nossa pitoresca aldeia bucólica
Uma
tribo espiritual de sementes escolhidas, boêmios, trovadores
Canhões
bombardearam Itararé – onde estão esses canhões agora?
Itararé
permanece como constelação, garra, muito viço em seu louvor
Por
onde for
Cada
Itarareense será a prova desta Itararé e de seu imenso valor
Cantamos,
fazemos música, somos festeiros. Santa Itararé das Artes
Nossas
lágrimas são nossos rios; nossas esperanças somam-se aos sonhos
Nas
searas construímos; nas batalhas somos os que não fogem a luta
Por
onde for
Cada
Itarareense com sua alma-nau de Itararé será dela um portador
Longe
de Itararé é um lugar que não existe: Itararé é nosso espírito
De
celebração a vida, à arte, e ressurgirmos porque brilhamos, e Itararé
Está
onde estivermos, e onde nos encontrarmos e falarmos deste amor
Encantador
Uma
eterna Itararé estará em nós como um encantário de luz e fulgor!
IN-
Que mensagem deixaria para os leitores?
RESPOSTA
Meu
partido é o coração do povo, e sempre foi Itararé; meu coração alvirrubro é
Itararé, minha alma é Itararé, nunca tive lucro com Itararé, levo-a por onde me
vou em verso e prosa, contações e louvações, cantando-a, honrando-a, em
entrevistas a rádios (como na VUNESP-FM ou na Jovem Pan de SP); ou mesmo na Márcia
Peltier (TV Band/Jornal da Noite/Momento Cultural); ou ainda na TV Cultura
(Programas Metrópolis e Provocações); ou mesmo mais recentemente no Programa
Temperando o Papo (Rede GNT); ou, ainda no jornal O Estadão, quando fui
vencedor do Primeiro Salão Nacional de Causos de Pescadores (promoção Jornal O
Estado de São Paulo/USP/Parceiros do Tietê); ou ainda no Mapa Cultural Paulista
(fui premiado defendendo Itararé várias vezes como escritor); ou no Prêmio
Lygia Fagundes Telles para Professor Escritor (CRE-Mário Covas). Sempre cantei
Itararé, seu povo, sua riqueza de linguagem magnífica, sua historia, sua
poética, a literatura itarareense propriamente dita, seus tipos populares,
peculiaridades e características geohumanas; suas personalidades como Jorge Chueri,
Maestro Gaya, Pachoal Melilo, Elvira Pagã, Luiz Barco, Armando Merege, Ed
Primo, Luiz Antonio Solda, Carlos Casagrande, Rogéria Holtz, e tantos outros. A
mensagem que deixo é que acima e sobre todas as coisas é que, “pelamordedeus”, AMEM
realmente Itararé sem interesse, sem visar lucros, sem levar vantagem, sem
ganharem dinheiro com isso, sem fuxicos, antros de escorpiões, bastidores
políticos sórdidos, máfias e quadrilhas; mas, do fundo do coração alado protegendo
Itararé, porque é nossa derradeira morada um dia. Que promovam, honrem,
dignifiquem Itararé, e não a destruam, não a envergonhem, não a dilapidem mais...
Essa é a mensagem que sou, e que deixo, que veiculo de coração aberto e alma
lavada de lágrimas; pobre Itararé, motivo de chacota, de noticiário falando de
improbidades, impunidade historial, crimes, acidentes, tramoias, corrupção; mais
um vergonhoso pedágio dividindo a nossa histórica cidade bem ao meio e nenhuma
autoridade com suporte ético-visionário e visão historial de peso que preste
querendo mudar até geoespacialmente isso, a SABESP com suporte legal e
financeiro para investir em Itararé sem fazer o que legalmente deveria, rios poluídos,
aterro sanitário incorreto e incompleto, e essa instituição nem sendo interpelada em
juízo para cumprir obrigações legais de mais de década atrás, tudo ficando
estranhamente por isso mesmo, e a nobre fauna artística de Itararé (os
fanáticos por Itararé) sofrendo por vê-la em risco, em abandono estético-urbano
e dezelo até esses últimos anos. Esperamos que isso mude, sonhamos com isso,
morreremos por isso. Era o que eu tinha a dizer. Muito obrigado pela
oportunidade e pelo generoso espaço...
SEMPRE HAVERÁ ITARARÉ. A luta é sempre. Itararé ‘das campinas, e mil
recantos amados’; verás que um filho teu não foge a luta/Nem teme quem te adora
a própria morte...
Reportagem
e edição: Elvis de Oliveira Ferraz
Jornalista
- MTB 75229/SP
(15) 9 9747-4239
Skype
elvisferraz


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