terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Entrevista Silas Correa Leite


 

ENTREVISTA –  Jornalista Elvis de Oliveira Ferraz

ENTREVISTADO:

Silas Correa Leite – www.itarare.com.br/silas.shtm


www.portas-lapsos.zip.net – E-mail: poesilas@terra.com.br

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IN- Deste de que idade surgiu a paixão pela poesia?

RESPOSTA: Fui, por assim dizer, ‘descoberto’ pela Professora-alfabetizadora a Mestra-Anjo Jocelina Stachoviach de Oliveira (o primeiro anjo que Deus colocou em minha vida), no Grupo Escolar Tomé Teixeira de Itararé, anos 60, fazendo poemetos pueris, colados em jornais de cartolina nos murais da escola primária. Aos 16 anos escrevia para jornais locais, croniquetas, humor, trocadilhos. Meu pai, Maestro Antenor Correa Leite, já falecido, hoje nome de rua em Itararé, era cantor, compositor sacro, maestro, regente, arranjador, músico e fundador de corais e bandas em Itararé e região, e região do Paraná, e lia muito, tinha programas de rádio, regia corais e bandas, artista talentoso, e nos obrigava a ler, como também nos dava de castigo, a mim principalmente, muito precoce, hiperativo e traquinas, espeloteado, de ler dicionário (pesquisar palavras que eu dizia por dizer só por achá-las bonitas sem contextualizá-las), ler jornais (as brigas do Brizola, Jango, Lacerda) e a Bíblia. E era um ótimo contador de causos também, desses proseadores de juntar gente, do povo parar para ouvir, enquanto proseava com garbo após tocar toadas e baladas em seu acordeom vermelho, quando até os passarinhos de Itararé pousavam nas cercas para ouvir, e a rua descalça, cor de rosa, da periferia de Itararé, Vila São Vicente, ficava lotada... Escrita, história oral, música, poesia. Minha infância, meu maior tesouro... Com ele, meu patriarca, peguei gosto pela arte, música, leituras mil, e lendo a Bíblia adorava os Salmos; poemas que “salmam” (louvam, esse é o verbo) a Deus. Pois foi a descoberta da poesia como encorpamento de minha sensibilidade, da minha primeira formação lítero-cultural, por assim dizer. Lendo muito, e lendo poesia, fui me clarificando e me achando, achando também um caminho de mim comigo mesmo... A Poesia me salvou de mim. Habitando-a, feito uma Pasárgada, uma Shangri-lá, uma Neverland, pude encarar a infância humilde, depois a barra pesada de viver e de sobreviver, encorpando assim ainda a minha persona na fundação da poesia, da poesia como libertação, clarificação... âncora e farol, e, nela, escrevendo-as,  a respiração da alma sensível... Eu faço poesia como quem chora... Como quem viaja... como quem pede socorro... Feridos venceremos?

IN- Ao seu ver o que a poesia tem a ver com a cidade de Itararé?

RESPOSTA: Itararé, bonita pela própria natureza, palco iluminado, chão de estrelas, a história que toda cidade brasileira gostaria de ter, Itararezinha, Santa Itararé das Artes, Cidade Poema, República-Etílico-Rural Zenboêmica de Itararé, capital artístico-cultural da região - a história do Brasil passa por Itararé; sempre haverá Itararé... então, cantando-a a em verso e prosa – Canta a tua aldeia e serás eterno, disse León Tolstói – Itararé é a própria beleza geofísica, a própria arte, a própria Poesia. Por isso, Cidade Poema, berçário, ninhal, meu reino encantado.  Aliás, na própria Estância Boêmia de Itararé, o clã dos chamados “fanáticos por Itararé” diz que a cidade é mesmo um ponto do universo onde a mão do criador parece haver se esmerado em reunir maior número de belezas, acumulando nossa aldeia abençoada de tudo quanto possa encantar os olhos e arrebatar o espírito. E seus cânions, grutas, cavernas, sumidouros e cachoeiras provam isso. Itararé, brilhante, portentosa, diferenciada, ilustre, com seus artistas, com sua seiva ficcional (e de mentirosos, contadores de causo) e rica linguística de dimensão histórica e humana.

IN- Em Itararé há dois hinos dedicados ao município, "O Hino de Itararé", do Gerson e Dorothy, e o Hino ao Itarareense, no qual o senhor é o autor da letra. Poderia nos dizer como foi composto este hino?

RESPOSTA;

Bem, eu, saudoso de Itararé, entre uma renca de saudosos ausentes andorinhas sem breque, em bares do Bixiga, bairro boêmio de São Paulo, no inicio dos anos 70, cantava meus lamentos entre conterrâneos, e, melancólico, com saudades de Itararé, fiz uma balada, meio blues, meio banzo, meio fado, meio “spiritual”, que era essa letra e tinha uma música no mesmo espírito e improvisado corpo musical boêmico louvando Itararé. Nas quebradas da noite – e longe de Itararé é um lugar que não existe (só Deus sabe a dor que sente um Itarareense longe de seu lar, sua terra-chã) –  eu aguardava um dia que houvesse um concurso, como tantas vezes sugeri escrevendo nos jornais locais, para concorrer com outros compositores, visando eventualmente a ser concorrente ao hino oficial de Itararé, como aconteceu em outros municípios em que era criado um concurso para isso. Como, no entanto, o Prefeito Coquemala instituiu o Hino de Itararé, quem há tempo conhecia o meu trabalho sugeriu que eu o inscrevesse pelo menos como Hino ao Itarareense, e, assim, tardiamente ou não, graças a amigos que amo, admiro e respeito, e me ajudaram muito nesse fito, e houve então que eles intercederam junto às autoridades constituídas e nesse fulcro ficou sendo finalmente o Hino ao Itarareense, com aprovação oficial do Palácio Vadico (Legislativo Municipal) e sanção do Prefeito, o que em muito me honrou, quando, também, fui o primeiro homenageado no Centenário de Itararé, o primeiro a ser escolhido para expor no Centro Cultural de Itararé (Mostra “Imagens & Palavras”), tendo, à ocasião, meu falecido pai recebido o nome de uma rua em Itararé, e eu, o galardão do glorioso titulo de Cidadão Itarareense de papel passado e tudo. Por isso, o Hino ao Itarareense ainda é um hino de louvor à Itararé, ao seu celeiro de artistas, e os dois, belos referenciais artístico-musicais dessa Itararé que amamos tanto.

IN- Como surgiu a ideia de compor este hino?

RESPOSTA: O comentário exposto acima já enuncia bem a ideia da obra como um todo, da criação em si, mas a letra era de muito antes, quando eu morava em pensão, passando fome, “sem dinheiro no bolso/sem parentes importantes/e vindo do interior – como na canção de Belchior - longe de casa, para fugir (solidão, tristeza, saudade, angustia, amargura) e comecei a bolar a letra/poema, depois musicando de improviso, cantando ora em ritmo e jeito de balada, ou espiritual, ou mesmo tipo blues improviso, quando amigos meus me viam melancólico e me ouviam a cantar chorando – saudades de Itararé é uma dor que dói na alma - e os Itarareenses que como eu tinham migrado,  chorando cantavam comigo... Para ser oficial ele foi mudado aqui e ali, o Maestro Vanderlei Garcia do Nascimento (Igreja Adventista de Itararé), acertou aqui e ali, fez a partitura, deu a versão final em harmonia, melodia e rimo. E se restou então assim, em letra e música final. No site do UOL há uma bela gravação do Mauro Vieira cantando – vejam no link na web:


 

Hino ao Itarareense (Letra)

1

Se a batalha te chama na história

Voltarás com verve e augusto

Pra ser forte no amor e na glória

Defender Itararé a todo custo

Levas sempre no peito o encanto

De uma Terra de infinita Sé

Dessa aldeia que adoras tanto

Santuário chamado Itararé

(Refrão)

Se a honra de Ser te pertence (

Deste chão és ternura e fé       (

Pra viver sempre Itarareense (

E morrer por Itararé!             (bis)

2

Sentinela que guarda a fronteira

Um celeiro de pinha e maná

Da legalidade és trincheira

Às barrancas do Paraná

Se te fundas Boêmio que vence

Desde os bosques, planícies até

Te engalanas tão Itarareense

Feito nau ao luar de Itararé

3

Se o Brasil ergue a clava forte

Pra ornar a Carta-Constituição

Lutarás com ardor até a morte

Para valorizar teu rincão

Esse Itarareense-Andorinha

Encantada, do rio verde ao tembé

Sobre a Coronel Jordão se aninha

Chão de Estrelas de Itararé

 

IN- Trocaria a cidade de Itararé para morar em outro lugar?

RESPOSTA

Nem por força. Morrendo vou para uma Itararezinha Celeste... Aliás, um poema meu bem responde e diz poeticamente:

Deixei Meu Coração em Itararé

 

Eu posso ir para qualquer lugar do mundo

Uma paisagem bonita, montanhas, ou oceanos

Mas se não estou na minha aldeia Itararé

Então não me sinto dentro do meu próprio coração.

 

Ah meus amigos viajosos

Deixei meu coração em Itararé

Num cristal de lágrimas de luar da Praça Coronel Jordão

Ali é meu ninhal, meu mundo

Só em Itararé sou uma verdadeira Andorinha.

 

Eu posso ir para qualquer lugar do mundo

Ver estátuas e cofres, novidades maravilhosas

Mas Itararé está na minha corrente sanguínea

Só na minha terra-mãe reconheço auroras e prelúdios.

 

Ah meus amigos boêmios

Deixei meu coração em Itararé

Cada paralelepípedo como cacau quebrado da cidade, sou eu

Itararé é o meu encantário

Meu reino mágico, palco iluminado, constelação.

 

Ah meus amigos do mundo

Quem não está em Itararé está vazio de si mesmo

Minha mãe, meu chão de estrelas, minhas memórias, meu lar

Feliz é o peregrino que tem um céu para um dia poder voltar!

 

IN- O que mais de orgulha em fazer parte de Itararé?

RESPOSTA:

Ah, eu sou apenas uma andorinha sem breque (quem nasce em Itararé é andorinha; fui eu quem criou isso), sem lenço e sem documento, nada nos bolsos e nas mãos, como na canção de Caetano Veloso, um eterno aprendiz do Mestre Jorge Chueri, o maior artista de Itararé, que também teve como referência Itarareenses ilustres, como  Pedro Ribeiro Pinto, Peri Fiuza, Percy Jorge, Gustavo Jansson, Nequinha, Paulo Rolim, João Contieri, Hermínio Lages, Samuel Barbosa, Celso Pelissari, Paranaense Ferreira, Walter Santana Menk, ou ainda Lázara Aparecida Fogaça Bandoni, Terezinha Iluminada de Mello, Maria Aparecida Coquemala,  Eunice Brito Tatit, Celeste Bizarro, e de ter sido amigo das Famílias Tatit, Chueri, e tantas outras, pilares da sociedade Itarareense... O que mais me orgulha é ser uma espécie assim de embaixador itinerante de Itararé, 'trovattore' mambembe que canta a sua terra. E tenho uma bandeira de Itararé, para, quando morrer, amarrá-la ao meu dorso. Como já passei dos 60 anos, penso também em encher um travesseiro de terra de Itararé, para estar comigo, por onde eu me for, e quando eu morrer, descansar minha cabeça de louco da pá virada e da pá varrida, sobre esse travesseiro de terra de Itararé, até aqui no cemitério lágrimas do céu de Itararé ser plantado. Até porque, cuido bem de minha terra, porque um dia morrerei, e então serei, finalmente e para sempre, a própria Itararé. Quando eu era criança, comia terra. Um dia, no devir, quando uma criança comendo terra disser que a terra está com gosto de poesia, sou eu, sou esse, sou essa, minha Itararé-poema, da qual eu sou apenas uma andorinha sem breque, e tenho orgulho de ser discípulo desses mestres magnos de meu chão de estrelas... 

IN- Qual a maior vitória do município nestes 121 anos?

RESPOSTA;

Triste Itararé, abandonada nesses últimos anos, em total dezelo público, de improbidades a falta de visão técnico-administrativo-funcional com ética plural comunitária inclusiva, desacertos que ensejaram impunidades e mesmo vários processos contra políticos nefastos à historicidade de tão maravilhosa terra, que vivenciou historicamente outras revoluções, guerras civis, esteve para ser destruída, mas ninguém pode destruir Itararé. Essa é a nossa maior gloria, a nossa maior vitória, a nossa maior riqueza historial datada. Será que não sendo destruída por canhões, bombas, revoluções de fins de uma oligarquia e começo de outra, afinal seremos destruídos (como estivemos sendo por dezesseis anos) por políticos incompetentes e corruptos? Sempre haverá Itararé, e, como digo num poema:

Itararé das Revoluções

Revoluções históricas do Brasil passaram por Itararé, cidade de divisa

E quiseram destruir Itararé; nosso rincão amado, nossa terra-mãe

Mas Itararé não pode nunca ser destruída. Sempre haverá Itararé

Cada andorinha-Itarareense será essa nossa Itararé alada, esse pavilhão

Por onde for

Com sua bandeira na alma, o DNA no coração e seu esplendente amor

 

Itararé, Trincheiras da Legalidade, nossa pitoresca aldeia bucólica

Uma tribo espiritual de sementes escolhidas, boêmios, trovadores

Canhões bombardearam Itararé – onde estão esses canhões agora?

Itararé permanece como constelação, garra, muito viço em seu louvor

Por onde for

Cada Itarareense será a prova desta Itararé e de seu imenso valor

 

Cantamos, fazemos música, somos festeiros. Santa Itararé das Artes

Nossas lágrimas são nossos rios; nossas esperanças somam-se aos sonhos

Nas searas construímos; nas batalhas somos os que não fogem a luta

Por onde for

Cada Itarareense com sua alma-nau de Itararé será dela um portador

 

Longe de Itararé é um lugar que não existe: Itararé é nosso espírito

De celebração a vida, à arte, e ressurgirmos porque brilhamos, e Itararé

Está onde estivermos, e onde nos encontrarmos e falarmos deste amor

Encantador

Uma eterna Itararé estará em nós como um encantário de luz e fulgor!

 

IN- Que mensagem deixaria para os leitores?

RESPOSTA

Meu partido é o coração do povo, e sempre foi Itararé; meu coração alvirrubro é Itararé, minha alma é Itararé, nunca tive lucro com Itararé, levo-a por onde me vou em verso e prosa, contações e louvações, cantando-a, honrando-a, em entrevistas a rádios (como na VUNESP-FM ou na Jovem Pan de SP); ou mesmo na Márcia Peltier (TV Band/Jornal da Noite/Momento Cultural); ou ainda na TV Cultura (Programas Metrópolis e Provocações); ou mesmo mais recentemente no Programa Temperando o Papo (Rede GNT); ou, ainda no jornal O Estadão, quando fui vencedor do Primeiro Salão Nacional de Causos de Pescadores (promoção Jornal O Estado de São Paulo/USP/Parceiros do Tietê); ou ainda no Mapa Cultural Paulista (fui premiado defendendo Itararé várias vezes como escritor); ou no Prêmio Lygia Fagundes Telles para Professor Escritor (CRE-Mário Covas). Sempre cantei Itararé, seu povo, sua riqueza de linguagem magnífica, sua historia, sua poética, a literatura itarareense propriamente dita, seus tipos populares, peculiaridades e características geohumanas; suas personalidades como Jorge Chueri, Maestro Gaya, Pachoal Melilo, Elvira Pagã, Luiz Barco, Armando Merege, Ed Primo, Luiz Antonio Solda, Carlos Casagrande, Rogéria Holtz, e tantos outros. A mensagem que deixo é que acima e sobre todas as coisas é que, “pelamordedeus”, AMEM realmente Itararé sem interesse, sem visar lucros, sem levar vantagem, sem ganharem dinheiro com isso, sem fuxicos, antros de escorpiões, bastidores políticos sórdidos, máfias e quadrilhas; mas, do fundo do coração alado protegendo Itararé, porque é nossa derradeira morada um dia. Que promovam, honrem, dignifiquem Itararé, e não a destruam, não a envergonhem, não a dilapidem mais... Essa é a mensagem que sou, e que deixo, que veiculo de coração aberto e alma lavada de lágrimas; pobre Itararé, motivo de chacota, de noticiário falando de improbidades, impunidade historial, crimes, acidentes, tramoias, corrupção; mais um vergonhoso pedágio dividindo a nossa histórica cidade bem ao meio e nenhuma autoridade com suporte ético-visionário e visão historial de peso que preste querendo mudar até geoespacialmente isso, a SABESP com suporte legal e financeiro para investir em Itararé sem fazer o que legalmente deveria, rios poluídos, aterro sanitário incorreto e incompleto,  e essa instituição nem sendo interpelada em juízo para cumprir obrigações legais de mais de década atrás, tudo ficando estranhamente por isso mesmo, e a nobre fauna artística de Itararé (os fanáticos por Itararé) sofrendo por vê-la em risco, em abandono estético-urbano e dezelo até esses últimos anos. Esperamos que isso mude, sonhamos com isso, morreremos por isso. Era o que eu tinha a dizer. Muito obrigado pela oportunidade e pelo generoso espaço...  SEMPRE HAVERÁ ITARARÉ. A luta é sempre. Itararé ‘das campinas, e mil recantos amados’; verás que um filho teu não foge a luta/Nem teme quem te adora a própria morte...

-Silas Correa Leite, poetinha: e-mail para contatos: poesilas@terra.com.br

 

Reportagem e edição: Elvis de Oliveira Ferraz

Jornalista - MTB 75229/SP

(15)  9 9747-4239

Skype elvisferraz

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